O que diferencia a “falta de foco” do Neymar da falta de foco no TDAH Você com certeza já ouviu dizer por aí que fulano ou ciclano não tem foco e não deveria ser convocado, mas “falta de foco” no futebol não é diagnóstico, é praticamente uma posição em campo. Tem goleiro, zagueiro, volante, meia, centroavante, e de tempos em tempos aparece o craque oficialmente escalado como camisa 10 da falta de foco nacional. Já passaram pela posição Romário, Edmundo, Ronaldinho, Adriano, e agora, claro, o Neymar. O curioso é que esse rótulo costuma colar justamente nos caras que mais decidem com a bola no pé.

Romário parecia negociar com a concentração. Faltava treino, dormia mais do que a comissão queria, dava as escapadas dele, e no domingo fazia dois gols como quem responde mensagem atrasada. A tese dele virou patrimônio cultural: treino é treino, jogo é jogo.

Edmundo era um documentário à parte. Fora de campo, manchete. Dentro de campo, caos organizado, 29 gols no Brasileirão de 97 e zagueiro pedindo pra trocar de profissão.

Ronaldinho Gaúcho então nem se fala. O homem treinava sorrindo, jogava sorrindo e, com a bola no pé, parecia estar jogando outro esporte. Em 2005 fez a torcida do Real Madrid aplaudir de pé no Bernabéu. Esse cara aí, definitivamente, não tinha problema de concentração.

Adriano vinha da mesma escola. Imperador na Itália, cria no Rio, talento bruto, esquerda criminosa e uma vida pessoal que o Brasil inteiro achava ter direito de comentar.

Aí chega o Neymar. Festa, polêmica, queda, drible, lesão, rede social, opinião pública, defesa, crítica. Neymar nunca foi só jogador, sempre foi assunto. E no Brasil, ser assunto às vezes pesa mais do que jogar bola. Só que tem um detalhe que a corneta esquece no vestiário: ninguém vira maior artilheiro da Seleção Brasileira por acidente. Ninguém chega aos 79 gols com a amarelinha “sem conseguir focar”. O cara pode ter escolhas que você não faria, pode ter momentos em que o profissionalismo dele vira debate justo. Beleza. Mas dizer que ele não tem foco como se fosse incapaz de se concentrar é confundir resenha de bar com funcionamento cerebral.

O que aparece pra galera é a foto no restaurante, o vídeo saindo de algum lugar, a treta da semana. O que não aparece é o resto da máquina: fisioterapia, fortalecimento, recuperação muscular, sono monitorado, nutrição calculada grama por grama, vídeo de adversário, reabilitação, volta de lesão, nova lesão, recomeço. Talento coloca o cara na porta da elite.

Rotina mantém ele dentro. Se o corpo do Neymar fosse administrado igual grupo de WhatsApp de pelada, ele já tinha pendurado a chuteira faz tempo.

Quando o povo diz que ele “não tem foco”, o assunto é estilo de vida, imagem pública, expectativa de torcedor frustrado. É papo de futebol. Mas e o que é a falta de foco do João, da Thaís, da Camila, do Eduardo interferindo diretamente no desempenho na carreira profissional, nos estudos, na vida pessoal?

Pode ser TDAH, e o papo é outro completamente diferente.

TDAH é transtorno do neurodesenvolvimento. É o cérebro tendo dificuldade real de regular atenção, impulso, tempo e execução. É abrir uma aba pra resolver uma coisa e dali meia hora se descobrir pesquisando a escalação da Croácia de 98. É começar três tarefas e terminar meia. É perder chave, celular e paciência dentro da própria casa. É sentar pra ler e quando volta não saber em qual linha tava. É atrasar mesmo tendo saído cedo. É parecer disperso enquanto, por dentro, a pessoa faz uma força enorme pra continuar presente.

A diferença pesa. Uma coisa é discutir se atleta deveria dormir mais, aparecer menos em polêmica, ser mais constante. Isso é debate esportivo legítimo. Outra bem diferente é usar “falta de foco” como piada genérica e jogar no mesmo balaio quem convive com uma dificuldade clínica real, que afeta estudo, trabalho, relacionamento, autoestima.

O boleiro pode perder treino e ainda decidir o jogo no domingo. A pessoa com TDAH muitas vezes quer começar, quer terminar, quer entregar, mas trava no aquecimento da vida.

Quando falarem que Neymar “não tem foco”, entra na resenha tranquilo. Futebol vive disso. Mas quando o assunto for TDAH, a conversa precisa sair da mesa de bar.

Me conta aí nos comentários: pra você, quem é o maior símbolo dessa “falta de foco” do futebol brasileiro? Romário, Edmundo, Ronaldinho, Adriano? Ou o Ney entra na lista?

Por aqui Dr. Ota não tem dúvida: Neymar merece jogar sua última Copa.

PS: inclusive Kaká, nosso último Bola de Ouro, acusado até de ser perfeito demais, aos 28 anos já jogava sua última Copa do Mundo distante do auge. Precisa eu falar o que o Ney fez aos 28?

Dr. Otávio Augusto Carvalho e Oliveira Médico com pós-graduação em Psiquiatria · CRM-MG 108485 Av. Pref. Olinto Reis Campos, 179 – Jardim Brasil, Três Pontas – MG · CEP 37190-000 @dr.otaviolfah (35) 99870-2334 · www.somossanvit.com.br