Estreia hoje a Coluna SANVIT. Vamos começar derrubando a maior mentira sobre saúde mental no Brasil.

Olá! Sou Dr. Otávio Augusto, mas pode me chamar de Dr. Ota, trespontano, médico pós-graduado em Psiquiatria pelo Hospital Israelita Albert Einstein e fundador da SANVIT. Hoje eu vim te contar uma coisa que pode mudar como você enxerga sua própria cabeça.

E se eu te disser que psiquiatria não é coisa de louco? E que provavelmente você precisa de uma, sem precisar de um diagnóstico assustador pra isso?

Essa palavra, psiquiatra, ainda assusta no Brasil. As pessoas dizem em voz baixa, como se fosse confissão. “Eu vou no…”, e completam fazendo cara. A gente já chegou em 2026 e o psiquiatra ainda carrega no imaginário popular o cheiro do hospício antigo, aquele estereótipo de filme com paciente amarrado e médico de jaleco branco anotando coisas num caderno. É uma imagem com 80 anos de atraso. E ela tá custando caro.

Custa caro porque, enquanto o estereótipo manda você imaginar “casos extremos”, a vida real tá cheia de gente normal, funcional, trabalhando, criando filho, pagando boleto, e sofrendo de coisas que a psiquiatria moderna resolve bem. A insônia que virou rotina. O cansaço que não passa mesmo dormindo o suficiente. A irritação curta com o filho, com o trânsito, com o cônjuge, que a pessoa atribui a “estresse” e segue tocando. A cerveja que era de fim de semana e virou todo dia. O peito que aperta antes da reunião. A vontade de não sair de casa que tá virando hábito. Tudo isso é território da psiquiatria. Tudo isso tem tratamento. E quase nenhuma dessas pessoas, se eu perguntasse na rua, diria “eu deveria ir num psiquiatra”.

A psiquiatria, hoje, não cuida só de “loucura”. Cuida da mente do mesmo jeito que o cardiologista cuida do coração. Você não espera ter infarto pra ir no cardio. Vai porque a pressão tá alta, porque a família tem histórico, porque você quer prevenir. Com a mente é igual. Não precisa estar quebrado pra procurar. Precisa, na verdade, é entender que aquilo que você chama de “fase ruim” há três anos talvez não seja fase.

Os números do Brasil contam a história. A Organização Mundial da Saúde aponta o nosso país como o mais ansioso do mundo, quase 10% da população convive com algum transtorno de ansiedade. Mais de 12 milhões de brasileiros vivem com depressão. O burnout, antes ignorado, foi reconhecido como doença ocupacional. O consumo de medicação para ansiedade e depressão sobe ano a ano. Mas o dado mais importante de todos é esse: menos da metade das pessoas que precisam de tratamento conseguem chegar até ele. Esse buraco, entre quem precisa e quem chega, é onde mora o estigma. É exatamente o buraco que essa coluna vem tentar diminuir.

Deixa eu te apresentar três pessoas. Talvez você reconheça alguém.

A Marta, 47, gerente de loja, mãe de dois. Acorda às 5h30, dorme à meia-noite, almoça em pé. Vive cansada. Toma café atrás de café pra aguentar. Quando deita, não dorme, fica revisando a planilha mental do dia seguinte. Marta nunca pisou num psiquiatra. Acha que cansaço é coisa de mãe, ansiedade é coisa de quem tem tempo de pensar nisso, e remédio é coisa de gente fraca. Marta tem ansiedade crônica não tratada há uns oito anos, e o corpo dela tá pagando a conta em forma de gastrite, dor de cabeça e uma pressão que começa a subir.

O Renato, 34, casado, dois filhos pequenos. Trabalha duro, bebe três cervejas todo fim de tarde “pra relaxar”. No fim de semana, mais. Briga com a esposa por bobeira, dorme mal, acorda pesado. Renato não é alcoólatra no sentido clássico. Renato tá usando álcool como automedicação pra uma ansiedade que ele nunca nomeou. E o álcool, a longo prazo, piora exatamente o que ele tava tentando aliviar. Se alguém sugerisse psiquiatra, ele riria: “pra quê, eu não sou doido”.

A Dona Cida, 68, viúva há dois anos, mora sozinha. Os filhos acham que ela tá esquecida demais. Esquece o nome do remédio, esquece se almoçou, esquece a panela no fogo. A família já tá pesquisando “começo de Alzheimer” no Google. Pode ser. Mas em muitos casos como o dela, é depressão tardia, uma condição comum no idoso brasileiro, frequentemente confundida com demência, e que tem tratamento bom. Ninguém pensou em psiquiatra. Pensaram em neurologista, em geriatra, em “aceitação”. O psiquiatra, no imaginário deles, é pra quando a pessoa “tá ficando ruim mesmo”.

Marta, Renato e Dona Cida não estão tendo um surto. Não estão “loucos”. Estão, todos os três, sofrendo de coisas absolutamente tratáveis pela psiquiatria moderna, e nenhum deles vai procurar, porque o estigma ensinou que psiquiatra é estação final, não estação intermediária. Esse é o problema central da saúde mental no Brasil hoje. Não é falta de tratamento. É a distância entre o sofrimento que existe e o lugar onde esse sofrimento poderia ser cuidado.

A boa notícia é que essa distância tá encolhendo, e é por isso que essa coluna nasce. Saúde mental virou conversa de WhatsApp, de mesa de bar, de almoço em família. As pessoas começaram a falar. Mas falar sem informação direito gera outro problema: surge muito autodiagnóstico, muito mito, muito “ouvi dizer que antidepressivo vicia”, muito “terapia é frescura”, muito “ritalina deixa zumbi”. É preciso ter alguém, médico, com formação séria, sem agenda de vender curso, colocando ordem na conversa. Esse é o lugar que eu ocupo aqui.

Então é isso que você pode esperar dessa coluna nos próximos 6 meses: uma conversa semanal, em linguagem de gente, sobre as questões que aparecem na vida real e o que a medicina realmente diz sobre cada uma delas. A insônia da Marta, a cerveja do Renato, o esquecimento da Dona Cida, e mais umas vinte e poucas pautas que esse país precisa entender melhor. Sem jargão pesado quando ele puder ser traduzido. Sem moralismo, sem promessa fácil, sem alarmismo. A ideia é simples: tirar a saúde mental do lugar de tabu e devolver ela pro lugar de assunto comum. Como pressão alta, como diabetes, como qualquer outro tema de medicina que a gente conversa sem medo.

Na semana que vem a gente começa pra valer. Tema de estreia: “Por que eu não consigo desligar à noite?” Se você ou alguém da sua casa anda olhando pro teto às 2h da manhã, não perde.

Se você se identificou com algo aqui, ou conhece alguém que precisa, vem conversar. SANVIT, no centro de Três Pontas. A gente escuta antes de qualquer coisa.

Dr. Otávio Augusto  ·  CRM-MG 108485

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui consulta médica individualizada.