
*Sem levantamento oficial sobre o número de romeiros, movimentação nas ruas, no Santuário e nas estradas mostrou uma das maiores festas dos últimos anos; forças de segurança não registraram ocorrências graves nem acidentes nas rodovias próximas a Três Pontas
A Festa do Beato Padre Victor 2026 foi, ao mesmo tempo, uma das mais movimentadas e uma das mais tranquilas dos últimos anos em Três Pontas. Embora não tenha sido divulgado pela organização ou pelas forças de segurança um levantamento oficial sobre o número de pessoas que passaram pela cidade, foi possível perceber o grande aumento no fluxo de romeiros vindos de dezenas de cidades da região e de diferentes partes do país.

Além do movimento natural registrado durante o período do novenário, entre os dias 14 e 22 de setembro, Três Pontas teve, especialmente no último fim de semana, uma movimentação muito acima do habitual. Em 2026, que a festa caiu em meio à semana, a cidade registrou um dos maiores movimentos dos últimos anos.
Gente de todas as idades, chegando em veículos de passeio, romarias, ônibus, a cavalo, de bicicleta e, principalmente, a pé. Pelas rodovias e pelas estradas vicinais, os romeiros contaram com atenção especial das forças de segurança. A Polícia Militar Rodoviária atuou nas rodovias, enquanto a Polícia Militar de Meio Ambiente esteve presente nas estradas vicinais, com apoio da EPR, concessionária responsável pela administração de um grande trecho rodoviário da região.

Muitos peregrinos utilizaram coletes refletivos para aumentar a visibilidade, principalmente durante a noite. Eram pessoas que faziam sua penitência para pedir graças ou agradecer por bênçãos e graças que, segundo seus relatos e sua fé, receberam por intercessão do Beato Padre Victor. Teve gente que veio de Lavras a pé.
O reforço no policiamento ostensivo contribuiu para que a festa terminasse sem acidentes relacionados ao grande movimento de peregrinos e veículos. Assim, quem chegou a Três Pontas a pé ou de carro conseguiu fazer o trajeto com segurança. Também participaram da peregrinação moradores da própria cidade, que foram de carro até Varginha ou Santana da Vargem e fizeram parte do caminho de volta a pé, além daqueles que vieram de cidades mais distantes.
Procissão luminosa encerrou a novena

Na noite da véspera da festa, a tradicional procissão luminosa chamou a atenção de quem participou e também dos moradores, especialmente aqueles que vivem no Centro da cidade.
Lojas e estabelecimentos comerciais foram enfeitados para acompanhar a passagem da imagem e da relíquia do Beato Padre Victor. Foi também a última vez que a procissão foi conduzida pelo pároco e reitor, Cônego Douglas Baroni, que está de malas prontas para assumir uma nova missão na cidade de Cruzília.
A missa das 19 horas encerrou a novena. A programação religiosa, porém, continuou durante a noite, com a celebração das 22 horas, destinada também aos romeiros que chegavam cansados depois de longas caminhadas.
Madrugada fria não afastou os romeiros

A madrugada fria não foi suficiente para diminuir a demonstração de fé. Aos poucos, uma multidão foi chegando às proximidades do Santuário.
Pouco depois das 4 horas da manhã, os primeiros sons dos instrumentos musicais começaram a ser ouvidos. Era a Corporação Musical Luiz Antônio Ribeiro iniciando mais uma Alvorada Festiva.
A apresentação aconteceu entre a missa das 3 horas da madrugada e a celebração eucarística das 5 horas, presidida pelo sacerdote trespontano Wellington.
A Corporação Musical Luiz Antônio Ribeiro participa da festa há mais de 130 anos, mantendo viva uma tradição que atravessa gerações e faz parte da história da celebração do Padre Victor.
Enquanto a música tomava conta da praça, os romeiros procuravam qualquer espaço para descansar. Alguns ficaram no jardim da Praça Cônego Victor, outros ocuparam bancos e laterais do templo.
O objetivo não era encontrar conforto, mas apenas amenizar o cansaço físico depois da peregrinação. O sentimento predominante era de satisfação por ter cumprido o caminho, sem que a festa fosse marcada por acidentes, como já ocorreu em outros anos.
Café, pão e solidariedade

Quando o dia começou a clarear, a estrutura da festa já estava preparada. A herma do Beato estava ornamentada com os tradicionais copos de leite, as barracas de alimentação estavam funcionando e o telão externo estava instalado.
A multidão continuava crescendo.
A tradicional barraca do café foi uma das mais procuradas. Para recepcionar os romeiros, voluntários serviram pão francês com margarina, café, leite e chocolate quente.
A distribuição se estendeu por praticamente toda a Praça Cônego Victor, desde a área em frente ao Memorial Padre Victor, onde ficam os sanitários e fraldários, até o local onde estava instalada a Base Comunitária da Polícia Militar.
Foram milhares de pães franceses distribuídos, além de café, leite e chocolate quente. Tudo oferecido gratuitamente, por meio de doações de pessoas que seguem o exemplo de caridade atribuído ao Beato Padre Victor.
Durante os 53 anos em que viveu em Três Pontas, Padre Victor ficou conhecido por sua dedicação aos mais pobres, tirando de si para oferecer a quem precisava.
Um dos romeiros relatou ter esperado cerca de 30 minutos na fila, mesmo com um grande número de voluntários trabalhando para agilizar o atendimento. A cena fez muitos associarem aquele momento à tradicional passagem bíblica da multiplicação dos pães.
Fila para chegar perto do Beato

Outra grande fila se formou para que os romeiros pudessem passar diante dos restos mortais do Beato Padre Victor.
A equipe responsável pelo atendimento naquele espaço já está acostumada com a movimentação. Parte dos voluntários atua no mesmo local há 25 anos e já é reconhecida por muitos dos romeiros que retornam todos os anos.
Os voluntários contaram que existe um trabalho para mobilizar grupos de jovens para assumir essa missão no futuro. Enquanto tiverem saúde, porém, afirmam que continuarão servindo a Deus e à Igreja.
Depois de algum tempo de espera, os romeiros passavam rapidamente diante do altar de Padre Victor. Muitos tocavam o local e tiravam uma fotografia como lembrança daquele momento.
Praça tomada por milhares de pessoas

Com temperatura amena, na casa dos 23 graus, o movimento aumentou progressivamente. O sol apareceu por alguns períodos e, com ele, a sensação de calor também aumentou.
Por volta das 9 horas, a Praça Cônego Victor já havia se transformado em um verdadeiro mar de gente.
As tendas instaladas em frente à Matriz ofereciam proteção ao público durante todo o dia. Mesmo sendo um espaço amplo, o Santuário não comportava todos os romeiros.
Dentro do templo, bancos, corredores e laterais estavam ocupados. Para quem não conseguia entrar, a alternativa era acompanhar as celebrações pelo telão instalado do lado de fora, mantendo o mesmo espírito de participação.
Fé que também movimentou a zona rural

A tradição da multiplicação dos pães esteve presente durante toda a festa, com a distribuição de café e alimentos aos romeiros.
Entre os participantes também estavam trespontanos que aproveitavam a oportunidade para comer o pão servido na festa, considerado por muitos uma lembrança de fé e devoção.
Parte dos romeiros veio da Capela do Padre Victor, na zona rural de Três Pontas, na região da Faxina. A tradicional procissão da madrugada, que todos os anos parte da Matriz de Nossa Senhora Aparecida, novamente levou na escuridão da madrugada, milhares de pessoas pelas estradas de terra até o alto da Capela Santa Cruz.
Neste ano, um cruzeiro foi instalado no local. A estrutura foi abençoada pelo padre Alexandre Mancilha e pelo bispo emérito da Diocese da Campanha, Dom Diamantino Prata de Carvalho. Depois de alguns anos de aposentadoria, Dom Diamantino falou sobre a alegria de voltar a celebrar em Três Pontas. Também destacou a santidade de Padre Victor e a devoção a Nossa Mãe.
Foi durante o período em que Dom Diamantino esteve à frente da Diocese da Campanha que os processos relacionados a Padre Victor foram iniciados e, desde então, o processo continua em Roma.
Para os romeiros que fizeram o trajeto a pé, o retorno para casa neste ano contou com uma alternativa oferecida pela Prefeitura: ônibus disponibilizados por meio da empresa Avanti, responsável pelo transporte coletivo da cidade. A iniciativa também contribuiu para fortalecer o turismo religioso, importante para a economia local.
Novo bispo celebra pela primeira vez a festa

A missa das 9 horas teve um significado especial. Pela primeira vez, o novo bispo da Diocese da Campanha, Dom Walter, celebrou a Festa do Padre Victor junto de grande parte do clero diocesano.
Dom Walter assumiu a Diocese em janeiro deste ano e presidiu a celebração, que também foi transmitida pela televisão.
Durante a homilia, ao comentar o Evangelho, o bispo falou sobre a trajetória de Padre Victor e os desafios enfrentados pelo sacerdote.
Dom Walter lembrou o momento em que Francisco de Paula Victor, aos 24 anos, ouviu do bispo: “Tu és sacerdote para sempre, seguindo a ordem do Rei Melquisedeque”.
Segundo o bispo, a ordenação marcou o início da missão sacerdotal de Padre Victor, que teria de enfrentar incompreensões e preconceitos em uma sociedade escravagista.
Ao falar sobre aquele período histórico, Dom Walter destacou a condição de homem preto e ex-escravo de Padre Victor e as dificuldades enfrentadas para ser reconhecido como sacerdote.
O bispo afirmou ainda, que Padre Victor respondeu às humilhações com amor e humildade, tornando-se, segundo sua pregação, um exemplo de virtude cristã.
Antes de encerrar, Dom Walter falou sobre a felicidade da Diocese da Campanha por poder contar com santos e beatos que podem ser cultuados como modelos e intercessores.
Movimento diminui durante a tarde

No meio da tarde, o movimento começou a diminuir. Muitos romeiros foram até a feira organizada neste ano pela Santa Casa de Misericórdia do Hospital São Francisco de Assis, enquanto outros iniciaram o retorno para suas cidades.
Também durante a tarde, a equipe de limpeza da Prefeitura começou a trabalhar na praça, recolhendo a grande quantidade de resíduos deixada pelo público após horas de intensa movimentação.
No fim do dia, a chuva chegou a ameaçar. Alguns pingos caíram, embora nem todos tenham percebido.
Na herma do Beato, onde durante todo o dia os fiéis fizeram orações e acenderam velas, a ornamentação começou a ser retirada. Os tradicionais copos de leite e as flores brancas que enfeitavam o local foram levados por pessoas que participaram da festa.
A ornamentação é resultado do trabalho de um grupo de pessoas que, todos os anos, se dedica a preparar o espaço para receber os devotos.
Uma festa feita por voluntários

Por trás da grandiosidade da Festa do Padre Victor está também o trabalho de centenas de voluntários, liderados pela Associação Padre Victor.
São pessoas que orientam os romeiros, servem alimentos, ajudam nas celebrações, organizam espaços, auxiliam na recepção e trabalham em diferentes setores para que a programação aconteça. Sem falar em famílias e empresas que distribuem café, almoço e água em suas casas, na Praça, na Mina. A empresa Lagotela monta nos últimos anos, tendas no “Trevo Padre Victor” onde serve alimentação reforçada para quem chegava na cidade e saia para a Capelinha.
Ao todo, foram nove horários de missas ao longo do dia. A última celebração aconteceu às 19 horas e contou com uma presença maior de moradores de Três Pontas, sem diminuir a participação dos fiéis.
Com o encerramento da última missa, também terminou uma longa jornada de trabalho para aqueles que ajudaram a organizar e realizar a festa.
Uma das festas mais tranquilas dos últimos anos

O balanço das forças de segurança também chamou a atenção. Segundo os registros policiais, a Festa do Padre Victor 2026 esteve entre as mais tranquilas dos últimos anos em relação às ocorrências. Não foram registradas ocorrências graves na cidade e, segundo os dados informados pelas polícias, também não houve acidentes nas rodovias próximas a Três Pontas relacionados ao movimento da festa.
O resultado encerra uma celebração que levou milhares de pessoas às ruas, estradas e ao Santuário, mantendo uma tradição que atravessa gerações.
A expectativa agora se volta para 2027. Os devotos esperam novamente se reunir em Três Pontas, sob a intercessão do Beato Padre Victor, e alimentam a esperança de que, até lá, Francisco de Paula Victor possa ser proclamado Santo da Igreja Católica.
Até que isso aconteça, a devoção continua durante todo o ano. E, para quem participa da festa, registrar as graças alcançadas não é apenas uma tradição de setembro, mas uma forma de manter viva, ao longo de todos os dias, a memória e a fé depositadas na intercessão do Beato Padre Victor.


















