

*Dona Maria Helena voltou a estudar aos 40 anos, lançou livro aos 61 e é sinal de persistência e coragem e muito querida pelas crianças e profissionais da educação
Aos 62 anos, a servidora pública municipal Maria Helena Gabriel de Oliveira prova que nunca é tarde para reescrever a própria história — e transformá-la em inspiração para toda uma comunidade. Auxiliar de Serviços Gerais da Prefeitura de Três Pontas, ela lança seu primeiro livro, “As Aventuras de uma menina especial”, uma autobiografia marcada por amor, coragem e esperança.
Coincidentemente, no último domingo (22), foi celebrado o Dia do Auxiliar de Serviços Gerais, tornando o momento ainda mais simbólico e especial para Maria Helena e para todos os profissionais que, com dedicação e cuidado, contribuem diariamente para o funcionamento dos serviços públicos.
Mais do que contar memórias da infância, Maria Helena transforma sua trajetória em exemplo de superação e ternura. E nada melhor que contarmos a sua história, prestes a iniciar março, o mês dedicado às mulheres.
Uma infância de desafios e amor

Nascida em 16 de maio de 1964, em Três Pontas (MG), Maria Helena cresceu na Fazenda Sete Cachoeiras, entre árvores, animais e o cheiro da terra molhada. Foi na simplicidade da roça que aprendeu o valor da natureza, do trabalho e da família.
Nascida sem os dedos da mão direita, enfrentou desde cedo as limitações impostas não apenas pela deficiência, mas pelo preconceito da época. Pessoas com deficiência não eram obrigadas a frequentar a escola, sob a justificativa de que sofreriam bullying. Por isso, foi superprotegida pela família, especialmente pelos pais.
Um episódio marcante mudou o rumo de sua vida: um taxista aconselhou seu pai a não investir nos estudos da filha, dizendo que mulher não precisava estudar — que quem deveria estudar era o filho homem. O pai, que era retireiro, refletiu e, na semana seguinte, Maria Helena já não estava mais na escola.
Mas o amor pela educação nunca saiu de seu coração.
A lembrança mais bonita da infância é a escola da fazenda, a professora Yolanda e a avó, Dona Izaltina. Quando retornou aos estudos ainda criança, foi acolhida por uma professora que acreditou que ela poderia aprender como qualquer outra criança — e assim viveu uma infância escolar normal, cheia de descobertas.
Apesar das dificuldades e da interrupção dos estudos, Maria Helena sempre reconheceu a importância da educação formal.
O recomeço aos 40 anos

Casada há 40 anos, mãe de quatro filhos — Ismael, Diana, Fabiana e Tatiana — e avó de quatro netos — Danilo, Murilo, Isadora e Ravi — ela encontra na família sua maior alegria e inspiração.
Foi justamente por causa dos filhos que decidiu voltar à escola aos 40 anos. Queria ajudá-los nas tarefas, mas as atividades estavam ficando difíceis. Levava exercícios da Escola João de Abreu para fazer em casa. O então diretor, Camilo Tavares, foi quem a incentivou a retomar os estudos.
Com apoio das professoras, inscreveu-se no EJA e no ENCEJA. Ao buscar seu histórico escolar na Escola Cônego Victor, descobriu que não havia registro de conclusão. Fez a prova de sequência, foi muito bem acolhida — e aquela conquista valeu para o resto da vida.
Ela não tem dúvidas: “Valeu a pena depois dos 40 anos. Não me arrependo. Se fosse preciso, faria tudo de novo.”
Seu conselho é direto e cheio de convicção: “Não desistam. Nunca é tarde para buscar o conhecimento. Hoje há muito mais oportunidades. Na minha época era mais difícil. Não deixem de ler, de estudar e de ler um livro. O saber não ocupa lugar.”
Mesmo em tempos de internet, ela defende o valor do livro, da leitura e do estudo contínuo.
25 anos dedicados à cuidar de escola
Há 25 anos, Maria Helena entrega seu coração ao ambiente escolar. Ingressou no serviço público quando a exigência era saber ler e escrever. Trabalhou nove anos na Escola João de Abreu e depois foi para a Escola Municipal Antonieta Ferracioli Duarte (Pituchinha), onde atua até hoje como Auxiliar de Serviços Gerais.
Saiu apenas por um ano para trabalhar na Farmacinha e na Secretaria Municipal de Saúde, na área da limpeza. Mas sentiu falta da escola, das crianças e dos profissionais da educação — e retornou.
“Gosto demais de criança, dos teatros e das atividades escolares. Isso me faz muito bem. Não me importo com o barulho das crianças e sou muito paciente”, relata.
Mais do que cuidar da limpeza, ela se tornou guardiã de afetos e memórias. Escreve poesias para as crianças e participa ativamente dos projetos escolares. Em seus textos, reflete sobre sustentabilidade, folclore, memórias da infância, o valor da família, da escola e da inclusão.
Ela faz questão de valorizar a profissão docente: acredita que professores deveriam ter mais reconhecimento, até mesmo aposentadoria mais cedo, diante da dedicação intensa e da sobrecarga que enfrentam.
O sonho do livro
Sempre gostou de escrever. Quando voltou a estudar, os professores descobriram seu talento para a redação. Leitora apaixonada por poesias, livros e jornais, tinha o sonho de publicar, mas nunca teve recursos financeiros.
Incentivada pelos filhos, decidiu escrever sua história, movida pelas lembranças da infância — simples, com muito sacrifício, mas repleta de amor.
As filhas Diana e Fabiana a inscreveram na Lei Aldir Blanc, do Governo Federal. A ideia surgir de Diana e Fabiana escreveu o projeto. A intenção inicial era apenas treinar, sem grandes expectativas. Mas Maria Helena foi classificada entre 20 projetos e ficou entre os quatro primeiros.
O livro já estava praticamente pronto. Ela decidiu caprichar. As ilustrações ganharam bordados especiais, com a participação da bordadeira Flávia de Almeida Vieira, de Juiz de Fora. O artesanato se uniu à literatura, dando ainda mais identidade à obra.
Lançamento e propósito social
O lançamento de “As Aventuras de uma menina especial” acontece neste sábado, dia 28 de fevereiro, às 17h30, no Centro Cultural Milton Nascimento, com entrada gratuita.
O exemplar será vendido por R$ 39,90, e todo o valor arrecadado será destinado à produção do livro em braile, para pessoas com deficiência visual e auditiva, com apoio de Bruno Maxximo.
Exemplares também serão doados às escolas municipais Ferracioli (onde trabalha) e Edna de Abreu (no bairro onde mora), à Escola Agrícola, à Associação Ubuntu, à Biblioteca Pública Municipal e à Associação de Moradores do Jardim das Esmeraldas.
Uma inspiração que vai além das páginas
Maria Helena viveu uma infância com poucos recursos, mas repleta de amor. Presenciou um tempo em que meninas não eram incentivadas a estudar. Trabalhou na roça, foi doméstica, faxineira, servidora pública. Voltou à escola aos 40 anos. Descobriu o talento para escrever. E, aos 61, tornou-se autora.
Hoje, aos 62, ela mostra que o conhecimento transforma vidas — em qualquer idade.
Sua história é um convite à coragem. Um chamado para que ninguém abandone seus sonhos. Uma prova de que a educação abre portas — e que a superação nasce da fé, da persistência e do amor.
Maria Helena não lança apenas um livro. Ela entrega ao mundo uma lição: nunca é tarde para aprender, recomeçar e inspirar.
















