

Era quase 22 horas deste domingo (27), e o Cônego José Douglas Baroni ainda se despedia de seus paroquianos no quintal da Casa Paroquial, onde viveu durante oito anos. O paroquiato chegou ao fim, mas os vínculos construídos ao longo desse período ficaram ainda mais evidentes em uma despedida marcada pela emoção, gratidão e carinho.
Depois de oito anos à frente da Paróquia Nossa Senhora d’Ajuda, em Três Pontas, Cônego Douglas segue para uma nova missão. Na próxima sexta-feira (2 de outubro), ele assumirá a Paróquia de São Sebastião, em Cruzília.
A despedida começou durante a celebração da última missa do Cônego Douglas como reitor e pároco do Santuário Diocesano de Nossa Senhora d’Ajuda. Uma multidão lotou o Santuário para agradecer e se despedir daquele que marcou profundamente a história recente da comunidade católica de Três Pontas e que foi o primeiro reitor do Santuário.
A celebração foi solene e contou com a participação de sacerdotes amigos da Diocese da Campanha e dos diáconos permanentes. Ao final da missa, as homenagens se multiplicaram. Pastorais, movimentos, grupos e comunidades prepararam uma despedida que emocionou o sacerdote e os fiéis.
Durante a homilia, Cônego Douglas fez uma verdadeira retrospectiva dos oito anos vividos em Três Pontas. Falou das comunidades rurais, dos cafezais, dos peregrinos, das crianças, das religiosas, dos paroquianos e, principalmente, da experiência de caminhar junto com um povo que, segundo ele, também o evangelizou.
Ao recordar sua caminhada, Cônego Douglas destacou a presença de Nossa Senhora d’Ajuda e as experiências vividas junto às comunidades.“Oito anos diante do olhar generoso e silencioso de Nossa Senhora d’Ajuda. Oito anos percorrendo as nossas comunidades rurais, no meio destes inúmeros cafezais, recebendo o cheiro da florada do café, recebendo a alegria e a bondade de tantas comunidades rurais que marcaram profundamente o meu coração.”
O sacerdote também falou sobre a convivência com as comunidades urbanas e os desafios encontrados na missão evangelizadora. “E também em nossas comunidades urbanas, diante do diálogo com a cidade, com os desafios impostos pela missão e pela própria evangelização, aprendendo a acolher, a ouvir a voz do Espírito, nesta vivência profunda do amor e da comunhão.”
Para Cônego Douglas, esses oito anos foram vividos em meio a uma verdadeira “graça”, proporcionada principalmente pela participação dos leigos. “Vivendo uma graça com tantas forças vivas, com tantos leigos comprometidos, com tantas pessoas generosas, capazes de evangelizar com a própria vida, com a sua alegria, com seu jeito bonito e simples de viver a própria fé.”

Ele lembrou com carinho das missas das crianças, realizadas aos domingos pela manhã, no Santuário. “Como esquecer da missa das nossas crianças, aqui no Santuário, às nove horas da manhã? Quanta espontaneidade das crianças, quantas manifestações dos nossos pequeninos, fazendo exalar aquilo que Jesus mesmo diz: ‘Deixai vir a mim os pequeninos, porque deles é o Reino dos Céus’.”
Também dedicou palavras às monjas carmelitas, que vivem no Carmelo São José. “Como esquecer também das nossas monjas carmelitas, que no silêncio do claustro, na oração incessante e no louvor que sobe aos céus em ação de graças pela nossa santificação, sempre nos acolhem com um sorriso amável, exalando o mesmo sorriso da nossa venerável Madre Teresa Margarida, fazendo desta uma terra de santos.”
Na visão do Cônego Douglas, Três Pontas é uma cidade profundamente mariana. Ele destacou a presença de Nossa Senhora nas três paróquias do município, cada uma sob uma invocação diferente. “Três Pontas é uma terra profundamente mariana. As três paróquias são confiadas à Virgem Maria: Nossa Senhora d’Ajuda, Nossa Senhora Aparecida e Nossa Senhora das Graças. Só poderia ser a Serra de Três Pontas.”
Ao olhar para os oito anos que agora se encerram, Cônego Douglas afirmou que o momento era, sobretudo, de agradecer. “É tempo de agradecer, tempo de louvar o Senhor e o nosso Cristo. É claro que não faltaram sofrimentos, não faltaram lágrimas e sonhos. Não faltaram momentos de rever atitudes, de rever decisões e de enfrentar turbulências. Mas não existe nada que possa dizer que ficou alguma cicatriz ou alguma questão a resolver. Muito pelo contrário: tudo é graça.”
Nesse momento, ele recordou com saudade a Irmã Vânia, do Carmelo São José, que, segundo ele, ensinava uma maneira simples e profunda de olhar para a vida: “Nada a pedir, somente agradecer.”
Para Cônego Douglas, essas palavras resumem os oito anos vividos em Três Pontas. “Assim, esses oito anos que hoje se concluem são um tempo que marcou a minha vida e o meu sacerdócio.”
Um dos momentos mais emocionantes da homilia foi quando Cônego Douglas falou dos romeiros que chegam a Três Pontas movidos pela devoção ao Beato Padre Victor.
Durante os oito anos em que esteve à frente da Paróquia Nossa Senhora d’Ajuda e do Santuário, ele conviveu de perto com milhares de peregrinos e se tornou, para muitos deles, uma referência na acolhida e na devoção ao sacerdote trespontano. “Agradeço a tantos romeiros, peregrinos e devotos de Padre Victor, que educaram o meu coração na simplicidade e na fé genuína deste nobre homem, de quem tive a honra de ser sucessor.”
Ele descreveu os peregrinos como pessoas simples e humildes, mas que chegam a Três Pontas com uma fé que se manifesta de maneira profunda. “São peregrinos simples, humildes, mas voltados com a fé viva nos seus olhos, na manifestação pura e genuína daqueles que vêm aqui em Três Pontas realizando a sua promessa, com gestos profundos de devoção, se prostrando diante do seu altar, chorando quando tocavam em sua relíquia, chorando quando tocavam em sua imagem e chorando quando podiam abraçar o sacerdote que fazia as vezes de Padre Victor.”
E completou: “A beleza está na simplicidade, no encanto da abertura e da compaixão, que nos leva a reconhecer o que Deus fala ao nosso coração.”
“Toda a cidade de Três Pontas me abraçou”
A despedida não foi apenas da comunidade paroquial. Cônego Douglas fez questão de agradecer a toda a população de Três Pontas.
Ele lembrou os contatos que teve com moradores nos mais diferentes lugares da cidade, dos estabelecimentos comerciais às comunidades e tantos outros ambientes onde esteve durante os oito anos. “Toda a cidade de Três Pontas eu levo no meu coração. Não somente a Paróquia d’Ajuda, que me abraçou, mas toda a cidade de Três Pontas me abraçou.”
Emocionado, agradeceu o carinho recebido. “Obrigado a todos os trespontanos, obrigado por este gesto de amor. É próprio de vocês. Vocês trazem a herança espiritual do Beato Padre Victor neste gesto amoroso e compassivo.”
Uma nova missão, sob a proteção de São Sebastião
A partir de agora, Cônego Douglas terá uma nova missão pastoral. Ele será o novo pároco da Paróquia de São Sebastião, em Cruzília.
A escolha da nova missão tem um significado ainda mais especial para sua história pessoal. Foi justamente em uma Paróquia de São Sebastião, em Varginha, que sua vocação sacerdotal começou a despertar, quando ele ainda tinha apenas cinco anos de idade.
Ao falar sobre a nova etapa, ele relacionou a imagem de São Sebastião às flechas do martírio e à própria entrega sacerdotal. “Hoje se encerra este tempo de graça no Senhor. Encerra-se um tempo de missão, mas não encerra um tempo de amizade, um tempo de convivência, um tempo de expressão de amor e de sincera comunhão.”
E prosseguiu: “Na próxima sexta-feira, dia 2 de outubro, vou olhar para a Paróquia dedicada a São Sebastião e aprender com ele a sermos inflamados pelo amor de Nosso Senhor e marcados pela flecha da doação, da abnegação e do martírio do corpo, da alma e do espírito.”
Cônego Douglas também recordou sua própria história de fé. “Vou agora ser guardião dele na cidade de Cruzília. Acredito que São Sebastião tem algo para me oferecer. Lá estarei para que eu possa me deixar tocar pela sua flecha do martírio, representando a graça da minha vocação e rezá-la com mais intensidade, fazendo memória daquele menino que sentiu o desejo de ser padre.”
Ele lembrou que foi naquela comunidade de São Sebastião que recebeu os sacramentos e viveu importantes momentos de sua formação cristã. “Foi assim que vivi profundamente essa graça de São Sebastião, recebendo o sacramento do Batismo, da Primeira Comunhão e da Crisma. Fui coroinha, catequista, participei de tantos grupos da paróquia e também ali me tornei sacerdote, no dia 11 de outubro de 2003.”
Para ele, as flechas de São Sebastião representam muito mais do que o martírio: “As flechas são renúncia, as flechas são amor, as flechas são despojamento. Que ele me aguarde junto à sua paróquia, que será confiada a ele.”
Em um dos momentos mais pessoais da homilia, Cônego Douglas se dirigiu aos fiéis como filhos e filhas e pediu perdão por suas limitações humanas. “Se o meu sacerdócio, fragilizado nas minhas capacidades humanas, foi motivo de alguma fraqueza na fé, se foi motivo de fechamento para a Igreja Católica, se foi motivo de algum desencanto com a Igreja, peço desculpas.”
Ele continuou: “Se o meu modo de ser atrapalhou a sua vida, foi motivo de tristeza ou de alguma dificuldade na fé, ajude-me. Ajude-me a ser fiel e feliz. Não olhe para os meus defeitos. Eu os conheço muito bem, mas, pelo menos, olhe o Cristo presente em mim.”
Depois da celebração, a emoção tomou conta do Santuário. Uma enorme fila formada por integrantes das pastorais, movimentos e grupos da paróquia entrou pelo corredor central. Muitos carregavam cartazes com frases e expressões que ficaram conhecidas durante o ministério do Cônego Douglas em Três Pontas.
Um a um, os paroquianos foram recebidos pelo sacerdote, que abraçou, agradeceu e se despediu de pessoas com quem compartilhou oito anos de caminhada.
Homenagens foram lidas, presentes foram entregues e muitas lágrimas marcaram aquele momento.

Mas a despedida ainda estava longe de terminar. Depois de abraçar a equipe de celebração na sacristia, Cônego Douglas saiu sem sequer retirar a túnica. Do lado de fora, um enorme corredor humano havia sido formado. Da porta externa da sacristia até o quintal da Casa Paroquial, fiéis se posicionaram para dar ao sacerdote o último abraço antes de sua partida.
Com balões, cânticos, aplausos e muitas lágrimas, Cônego Douglas percorreu o corredor formado pelos paroquianos. Ele abraçou crianças, jovens, adultos, idosos, integrantes de pastorais, membros de movimentos, amigos e famílias inteiras.
O sacerdote que chegou a Três Pontas para uma missão pastoral, que enfrentou junto com a comunidade os difíceis anos da pandemia da Covid-19, que acompanhou peregrinos, comunidades rurais e urbanas, que esteve à frente do Santuário e foi seu primeiro reitor, agora partia para uma nova missão.

Ficaram os oito anos de histórias, desafios, conquistas, orações, lágrimas e sorrisos. Ficou também o carinho de uma comunidade que fez questão de demonstrar, até o último momento, a gratidão pelo seu pastoreio.
E, como o próprio Cônego Douglas resumiu durante a homilia, termina um tempo de missão, mas não termina a amizade, a convivência, o amor e a comunhão construídos ao longo desses oito anos. A missão agora é outra. O caminho segue para Cruzília.
Mas uma parte da história do Cônego Douglas permanecerá para sempre em Três Pontas — e, especialmente, no Santuário Diocesano de Nossa Senhora d’Ajuda, onde ele escreveu oito anos de sua vida sacerdotal e pastoral.




































