Rostos marcados por hematomas e pelo sangue representado na maquiagem. A cena chamou a atenção de quem passou nesta terça-feira (11), pela Praça Tristão Nogueira, a Praça da Fonte, em Três Pontas. A caracterização representou as marcas deixadas pela violência contra a mulher — feridas que, muitas vezes, vão muito além do corpo e atingem a autoestima, a dignidade e a própria vida.

A ação fez parte do evento “Grito de Mulher pela Vida”, idealizado pela advogada Eliana Braga, com uma programação voltada à conscientização, orientação e fortalecimento das mulheres.

Para Eliana, o nome do evento representa a necessidade de transformar o silêncio em voz diante do crescimento da violência. “Enquanto mulher, a gente fala baixo, conversa, pede, explica e não acontece nada. Então, a gente precisa gritar. Nós chegamos ao ponto extremo de gritar para que não nos matem, porque a gente está morrendo pelo simples fato de sermos mulheres.”

A advogada destacou que o feminicídio e a violência doméstica ainda exigem respostas mais efetivas do poder público e da sociedade. “Infelizmente, o feminicídio está em uma escala muito grande. Faltam muitas políticas públicas e leis mais rigorosas para que os agressores sejam efetivamente punidos. O que nós pedimos às autoridades é que nos ajudem e engrossem essa corrente.”

Durante o evento, foram oferecidas orientações e informações sobre os serviços disponíveis para mulheres vítimas de violência. A programação também contou com dinâmicas voltadas ao fortalecimento da autoestima e ao empoderamento feminino.

“A parte da manhã foi mais voltada ao conhecimento da área e dos serviços que nós podemos prestar para essas mulheres. À tarde, teremos várias dinâmicas e, com certeza, será um marco para essas mulheres que carregam culpa e que, muitas vezes, não conseguem sequer se olhar no espelho.”

Segundo Eliana, uma das preocupações é fazer com que as mulheres conheçam seus direitos e saibam que existem mecanismos legais para protegê-las.

A advogada também citou a importância da Lei Maria da Penha, que completou 20 anos de sanção neste mês de agosto, e defendeu o aperfeiçoamento das políticas de proteção às vítimas.

O evento reuniu cerca de 60 a 70 pessoas entre organizadoras, parceiras, associações e colaboradores. A iniciativa foi construída por meio de parcerias e contou com a participação de artistas, advogadas, empresas, entidades e representantes da comunidade.

A música também fez parte do movimento, com apresentações musicais. Mais do que um evento, a proposta foi criar um espaço de acolhimento, informação e reflexão sobre uma realidade que ainda atinge milhares de mulheres.

Para Eliana Braga, a origem da violência está também em uma cultura de machismo que precisa ser enfrentada. “Esses homens trazem um machismo muito arraigado. É porque o bisavô fazia, o avô fazia e o pai fazia. Esses homens não foram criados nem ensinados para ouvir um ‘não’ e se contentar com aquilo, ou então conversar. Porque muitos, quando ouvem um ‘não’, partem para a agressão.”

Ela também chamou atenção para a violência vicária, quando filhos ou outros familiares são utilizados como instrumento para atingir a mulher. “A coisa aumenta cada vez mais. Está em uma escalada imensa, inclusive com a violência vicária, quando pais matam filhos ou filhas para atingir as mulheres. Então, a gente precisa parar com isso. A gente quer viver.”

A iniciativa também levou uma mensagem de união e força entre as mulheres. “Começa quando uma mulher decide não desistir. Quando ela se levanta, mesmo cansada. Quando ela continua, mesmo perdida. Enquanto uma mulher se levanta, ela não se levanta sozinha. Ela puxa outra, inspira outra e encoraja outra.”

Durante a programação, mulheres foram maquiadas com marcas que simbolizavam agressões sofridas por vítimas de violência doméstica.

Uma das participantes, Marita Duarte, contou que a caracterização despertou sentimentos difíceis ao representar, mesmo de forma simbólica, as marcas de uma relação abusiva.

“Hoje, quando a Jéssica estava me maquiando, com aquele olho roxo, aquela coisa, eu falei para ela que queria tirar, porque aquilo me dava uma sensação muito ruim. Era tudo: físico e sentimental. E você acaba se sentindo um nada, uma pessoa que não vale nada. É isso que eles fazem com a gente.”

Emocionada, ela destacou a importância de ajudar outras mulheres a encontrarem forças para romper com ciclos de violência. “Agora a gente está se levantando para que essas mulheres tenham força e não passem por nada do que eu e muitas outras mulheres já passamos.”

A programação também contou com manifestações culturais. A vereadora Valéria Evangelista Oliveira, Procuradora da Mulher na Câmara, participou do evento e declamou uma poesia em defesa das mulheres.

Nos degraus da escadaria de acesso à Fonte, placas trazem frases de alerta e conscientização sobre a violência contra a mulher. No ponto mais alto da escadaria, o Banco Vermelho, símbolo internacional de conscientização e enfrentamento ao feminicídio, reforça a mensagem. Mais do que um banco, ele representa um convite permanente para que a sociedade não permaneça indiferente diante da violência e compreenda que denunciar, acolher e proteger uma mulher pode significar salvar uma vida.

Ao longo do dia, quem passou pela Praça da Fonte também pôde receber orientações e conhecer os serviços e iniciativas voltados à proteção e ao atendimento de mulheres vítimas de violência.

O “Grito de Mulher pela Vida” deixou uma mensagem clara: combater a violência contra a mulher não é uma responsabilidade apenas das vítimas. É uma luta que exige informação, acolhimento, políticas públicas, responsabilização dos agressores e, principalmente, a participação de toda a sociedade.

Porque, quando uma mulher se levanta, ela não se levanta sozinha. Ela leva outras com ela.