*Servidora tinha experiência e fraudou o sistema para esconder desvios

A prisão preventiva de uma servidora efetiva da Prefeitura de Três Pontas, de 31 anos, investigada por suspeita de desviar recursos públicos, gerou grande repercussão no município. O caso começou a ser apurado após uma auditoria interna identificar movimentações financeiras irregulares, o que levou a administração municipal a comunicar imediatamente a Polícia Civil e o Ministério Público.

Em entrevista à Equipe Positiva, o prefeito Luis Carlos da Silva, o Luisinho, detalha como as irregularidades foram descobertas, explica as medidas adotadas pela Prefeitura desde os primeiros indícios, fala sobre a auditoria em andamento, responde às críticas e reafirma que qualquer servidor envolvido em irregularidades será responsabilizado. O prefeito também destaca que a administração municipal está colaborando integralmente com as investigações conduzidas pela Polícia Civil e defende transparência na apuração dos fatos.

Como o senhor descobriu que havia um desvio de recursos na Prefeitura?

Luisinho: Fiquei sabendo na sexta-feira. Desde o começo do ano determinei que fosse feita uma sindicância nas contas da Prefeitura, em todos os setores. Na sexta-feira, por volta do meio-dia, fui comunicado de que havia uma inconsistência nas contas da Prefeitura. Foram encontrados depósitos em uma conta que não correspondiam aos pagamentos que o Município deveria realizar. Desde o início da administração nós estamos revisando procedimentos internos justamente para identificar possíveis falhas. Essa análise acabou apontando movimentações incompatíveis com os pagamentos oficiais, o que imediatamente despertou a atenção da equipe. A partir daí determinei que todas as providências fossem tomadas para esclarecer o caso.

Os desvios aconteciam desde 2020. Como isso conseguiu passar despercebido por tanto tempo?

Luisinho: Primeiro, é importante dizer que nós trabalhamos com servidores concursados. Quando uma pessoa presta concurso, ela é aprovada pela capacidade técnica, mas ninguém consegue avaliar o caráter de alguém apenas por um concurso público. Ela trabalhava na Tesouraria e era responsável pela conciliação bancária da Caixa Econômica Federal. Era justamente quem fazia a conferência das movimentações. Pelo que foi apurado até agora, ela alimentava o sistema com informações falsas que o próprio sistema aceitava, impedindo que as irregularidades fossem detectadas. Nem os órgãos superiores de fiscalização identificaram essa fraude durante esse período. Ela começou fazendo pequenos desvios, inferiores a R$ 5 mil, e foi aumentando gradativamente os valores. Infelizmente, usou a inteligência e o conhecimento técnico que possuía para praticar algo errado. Mas tudo aquilo que é feito de forma irregular acaba sendo descoberto.

Como funcionava o setor onde a servidora trabalhava?

Luisinho: A conta onde aconteceram os desvios tem um volume muito grande de movimentações. São entre 80 e 100 operações por dia. É uma conta muito movimentada e, naturalmente, precisa existir uma pessoa responsável por operar o sistema. Infelizmente, isso pode acontecer em qualquer instituição. É como um banco: existe um gerente responsável por movimentar contas de clientes e, eventualmente, podem ocorrer irregularidades praticadas por quem tem acesso ao sistema. Na Prefeitura acontece a mesma coisa. É necessário confiar em um servidor para realizar essas movimentações. Ela era concursada, uma pessoa que demonstrava competência e eficiência no trabalho. Jamais imaginaríamos que pudesse praticar um ato dessa natureza.

Ela já admitiu ter agido sozinha? Ainda existe a possibilidade de outras pessoas estarem envolvidas?

Luisinho: Pelo que foi informado à Prefeitura, ela própria disse que agiu sozinha. Foi isso que ela declarou. Mas nós não vamos trabalhar apenas com essa informação. A sindicância continua aberta, o processo administrativo também e vamos realizar uma auditoria completa em todas as movimentações financeiras da Prefeitura. Já criamos uma comissão que será responsável por acompanhar esse trabalho e nomearemos oficialmente seus integrantes. Também determinamos o afastamento imediato da servidora. Todos os órgãos competentes foram comunicados. A Polícia Civil conduz a investigação criminal, a Promotoria acompanha o caso e a Prefeitura está colaborando integralmente. Quero deixar muito claro que tudo aquilo que estiver errado será apurado. Se descobrirmos qualquer outra irregularidade, ela será denunciada. Não aceitamos esse tipo de conduta dentro da nossa administração.

Já é possível saber qual foi o valor total desviado?

Luisinho: Ainda não. A investigação da Polícia Civil corre em segredo de justiça e nós estamos aguardando o trabalho técnico. Existe uma estimativa que circula em torno de R$ 2 milhões a R$ 2,7 milhões, mas eu não posso confirmar esse valor porque ainda não existe um levantamento definitivo. Somente a auditoria que estamos realizando conseguirá apontar exatamente quanto foi desviado. Ela vai muito além da investigação inicial e poderá revelar toda a extensão dos fatos.

Qual era a trajetória dessa servidora dentro da Prefeitura?

Luisinho: Ela entrou na Prefeitura em 2018 por meio de um processo seletivo. Em 2019 foi convocada como servidora concursada. Inicialmente trabalhou no setor de convênios e, depois, foi transferida para a Tesouraria. Sempre demonstrou muito conhecimento técnico, eficiência e competência. Tanto que, em 2020, quando o então tesoureiro se afastou para disputar uma eleição, ela chegou a assumir a função de tesoureira. Infelizmente, toda essa competência foi utilizada da forma errada. Foi justamente esse conhecimento que possibilitou a prática das fraudes.

Quantas pessoas trabalham nesse setor?

Luisinho: São apenas duas pessoas. Uma é responsável pelas movimentações das contas da Caixa Econômica Federal e a outra pelas contas do Banco do Brasil.

Os pagamentos da Prefeitura acontecem diariamente?

Luisinho: Sim. Todos os dias. Pelo que estamos apurando, ela conseguiu enganar inclusive o colega que trabalhava junto com ela. Os dois acompanhavam as movimentações e justamente por isso toda a investigação está sendo aprofundada para entender exatamente como tudo aconteceu. Ainda estamos levantando todos os detalhes.

Qual foi sua reação quando recebeu essa notícia?

Luisinho: Eu fiquei muito chateado. Eu fico incomodado quando descubro qualquer pessoa levando até uma simples caneta da Prefeitura, porque tudo aquilo pertence à população. É dinheiro público, dinheiro do contribuinte. Eu trabalho na Prefeitura há quase 35 anos. Nunca tive qualquer problema relacionado a desvio de dinheiro ou qualquer irregularidade. Tudo o que eu conquistei foi fruto do meu trabalho. Minha casa foi financiada. Meu carro também foi comprado com o resultado do meu trabalho. Nunca precisei tirar um centavo que não fosse meu. Por isso me incomoda quando as pessoas generalizam e dizem que na Prefeitura existe um bando de ladrões ou tentam me incluir nisso. Minha história demonstra exatamente o contrário. Tenho orgulho da minha trajetória no serviço público e não aceito qualquer tipo de desvio. Qualquer servidor que cometer irregularidades responderá pelos seus atos.

Além do prejuízo financeiro, qual foi o sentimento ao descobrir esse caso?

Luisinho: A tristeza é muito grande. Enquanto muitas pessoas procuram a Prefeitura precisando de ajuda, pedindo uma compra de férias-prêmio, solicitando um benefício simples que muitas vezes a administração não consegue conceder por falta de recursos, uma servidora concursada, com um bom salário e estabilidade, estava desviando dinheiro público. Isso realmente entristece. Infelizmente, ninguém consegue olhar para uma pessoa e saber se ela possui ou não caráter. Essa é uma realidade. Nós estamos aqui trabalhando para administrar a cidade da melhor maneira possível e esse tipo de situação acaba prejudicando toda a população.

O senhor ficou chateado também por ver seu nome sendo associado ao caso?

Luisinho: Sem dúvida. Eu fico muito triste quando algumas pessoas generalizam a situação. Quando dizem que “na Prefeitura tem um bando de ladrões”, acabam incluindo pessoas que nunca tiveram qualquer envolvimento com irregularidades, inclusive eu. Minha história fala por mim. Estou na Prefeitura há quase 35 anos. Nunca respondi por qualquer desvio de dinheiro público, nunca estive envolvido em escândalos e sempre trabalhei para defender a população de Três Pontas, principalmente as pessoas que mais precisam. Não acho justo um prefeito levar vantagem em cima do dinheiro público e também não acho justo que qualquer servidor faça isso. Quem desvia recursos da Prefeitura está roubando da cidade inteira. Está tirando dinheiro da saúde, da educação, das obras e de todos os serviços públicos. Por isso, se eu descobrir qualquer irregularidade, vou abrir processo administrativo, denunciar à Polícia, ao Ministério Público e tomar todas as providências necessárias contra qualquer pessoa que seja.

Nas redes sociais surgiram muitos comentários sobre o caso. Como o senhor recebeu essas manifestações?

Luisinho: Eu fico triste porque existem pessoas que aproveitam qualquer situação para espalhar boatos e criar um clima de caos. Alguns chegaram a dizer que isso já acontecia há muito tempo e que muita gente sabia. Ora, se alguém realmente sabia, por que nunca denunciou? Se uma pessoa tem conhecimento de um crime e não comunica às autoridades, acaba sendo conivente com aquilo. O que eu peço é muito simples: quem tiver qualquer informação concreta procure a Polícia Civil, o Ministério Público ou a própria Prefeitura. Ajude a investigar. Ajude a punir quem estiver errado. Falar em rede social é muito fácil. O difícil é apresentar provas. O prefeito não consegue estar em todos os setores da Prefeitura ao mesmo tempo. Eu não consigo estar simultaneamente na Tesouraria, na Saúde, na Educação, no Almoxarifado e em todos os departamentos. Muitas vezes passo a manhã inteira no gabinete assinando documentos e atendendo a população. Por isso existe uma estrutura administrativa. Mas, quando alguma irregularidade é descoberta, nossa obrigação é agir imediatamente, e foi exatamente isso que fizemos.

O senhor recebeu alguma informação oficial da Polícia Civil sobre o andamento da investigação?

Luisinho: Não. A investigação corre em segredo de justiça. As informações que tenho são as mesmas divulgadas pela imprensa: a apreensão de um carro, duas motocicletas, aproximadamente R$ 6 mil em dinheiro, telefone celular, notebook, pendrive e outros materiais. Também sei que agora a Polícia Civil está aprofundando as investigações sobre contas bancárias, patrimônio e outros possíveis bens. Mas, oficialmente, não recebo detalhes porque o inquérito é conduzido pela Polícia Civil.

Além da investigação criminal, quais medidas a Prefeitura já adotou?

Luisinho: A Prefeitura já instaurou um processo administrativo disciplinar. Também estamos realizando uma auditoria completa para identificar todos os prejuízos causados ao Município. Além da esfera administrativa, existe a responsabilização cível, para recuperar os recursos desviados, e a responsabilização criminal. Pelo que foi apurado até agora, não houve apenas o desvio de dinheiro. Também existiu fraude nas informações inseridas no sistema e nos dados encaminhados aos órgãos de controle interno e ao Tribunal de Contas. Tudo isso será analisado durante as investigações.

A servidora afirmou que agiu sozinha. O senhor acredita nessa versão?

Luisinho: Essa foi a declaração que ela deu e é a informação que recebemos. Ela afirmou que foi a única responsável pelos desvios. Mas isso não significa que a investigação terminou. Pelo contrário. Tanto a Polícia Civil quanto a auditoria da Prefeitura vão verificar absolutamente tudo. Não podemos trabalhar apenas com uma declaração. Precisamos analisar documentos, movimentações financeiras, sistemas e todas as demais provas. Se houver qualquer outra responsabilidade, ela será apurada.

Que mensagem o senhor deixa para a população de Três Pontas?

Luisinho: Quero dizer ao povo de Três Pontas que estou tão revoltado quanto qualquer cidadão. Esse fato aconteceu justamente em um momento em que estamos trabalhando para reorganizar financeiramente a Prefeitura. Tivemos perdas de arrecadação, redução de receitas e estamos fazendo um grande esforço para administrar os recursos da melhor maneira possível. Não estou aqui pensando em política. Não estamos em eleição municipal. Nosso compromisso é administrar a cidade com responsabilidade. Desde o primeiro momento comunicamos a Promotoria, registramos a ocorrência policial, encaminhamos toda a documentação e colaboramos com a investigação. Fizemos tudo o que era nossa obrigação fazer para demonstrar transparência e seriedade. É claro que haverá pessoas que vão tentar usar esse episódio politicamente. Isso faz parte. Mas eu peço que antes de acusarem alguém, procurem conhecer a história das pessoas envolvidas. Nunca tive qualquer problema criminal, nunca respondi por desvio de dinheiro público e continuo com a consciência tranquila. Se alguém errou, vai pagar.

Qual é a reflexão final que o senhor faz sobre esse episódio?

Luisinho: Quero dizer à população que vou continuar administrando Três Pontas com a mesma seriedade de sempre. Fico triste, não pelos comentários na internet, mas pelo desvio do dinheiro do povo. Eu também sou contribuinte. Pago meu IPTU, pago meu IPVA, pago meus impostos como qualquer cidadão. Quando alguém desvia dinheiro público, está roubando de todos nós. Também acredito muito em Deus. Sempre peço às pessoas que tenham fé e façam suas orações. Muitas vezes é Deus quem abre os nossos olhos para enxergar situações que estavam escondidas. Nosso compromisso é continuar investigando, recuperar os recursos públicos e garantir que qualquer pessoa envolvida responda perante a Justiça.