População aguardava há mais de uma década o desfecho de um dos casos mais emblemáticos da cidade; julgamento foi marcado por fortes emoções e depoimentos contraditórios
O júri popular realizado nesta quinta-feira (28) em Três Pontas, colocou fim a uma espera de 15 anos. O produtor rural Adenilson Vitor Cougo, de 35 anos, foi condenado a 30 anos de prisão pelo assassinato da namorada Taís Alves Carolino, de 16 anos, que estava grávida de seis meses quando foi morta em 2010.
O Conselho de Sentença reconheceu o crime como homicídio triplamente qualificado, por motivo torpe, meio cruel e recurso que dificultou a defesa da vítima. Já os crimes de aborto e ocultação de cadáver foram declarados prescritos. A sentença foi lida pelo juiz às 19h15, encerrando um dia intenso de depoimentos, debates e expectativas.
Caso emblemático e júri aguardado
O julgamento já havia sido adiado quatro vezes, o que aumentava a revolta e a ansiedade da população pela responsabilização do acusado. O último cancelamento aconteceu no dia 7 deste mês, quando a defesa desistiu de atuar alegando falta de tempo para analisar os autos.
Desta vez, o júri começou às 9h, com segurança reforçada no Fórum Dr. Carvalho de Mendonça. Policiais militares garantiram a tranquilidade do procedimento, que contou com grande movimentação de familiares, autoridades e moradores, mas transcorreu sem incidentes.
Depoimentos com contradições
Durante a manhã, três testemunhas foram ouvidas. O plenário presenciou versões contraditórias e lembranças fragmentadas, que relembraram pontos já conhecidos do processo e também trouxeram novas dúvidas.
A primeira testemunha foi uma ex-namorada do acusado, que declarou não se lembrar de quase nada do que havia dito em 2010. Foi necessário que seu antigo depoimento fosse lido em plenário. Ela confirmou que manteve relacionamento com Adenilson mesmo após ele ter sido preso pelo crime e reconheceu que chegou a visitá-lo na cadeia. Disse ter tomado conhecimento da confissão prestada pelo réu à polícia, mas levantou a possibilidade de que ele teria sido pressionado a assumir a autoria.
Na sequência, foi ouvida uma amiga de Taís, que na época tinha 16 anos e chegou a confessar participação no crime. Agora, porém, negou totalmente o envolvimento e afirmou que foi forçada a acusar dentro da Delegacia. Alegou que, por ser menor de idade e usuária de drogas, não compreendia a gravidade da situação e apenas repetia o que os policiais diziam.
Já a assistente social do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), que acompanhava adolescentes em situação de vulnerabilidade à época, negou qualquer tipo de coação policial. Ela destacou que os direitos foram preservados e relatou que se recorda da frieza da adolescente envolvida em contraste com o réu, que chorava bastante. Segundo ela, foram os próprios acusados que indicaram o local exato do crime, o que reforçaria a versão da acusação.
O crime
Em março de 2010, Taís desapareceu e, dias depois, seu corpo foi encontrado em estado avançado de decomposição às margens do Ribeirão da Espera, entre Três Pontas e Varginha. O crime chocou a cidade pelo requinte de crueldade e pelo fato de a adolescente estar grávida de seis meses.
Segundo a investigação, Taís foi atraída para uma emboscada com a ajuda de uma amiga e do irmão de Adenilson — ambos menores de idade na época. A jovem acreditava que teria um simples encontro, mas foi levada para um local isolado às margens do ribeirão, onde sofreu agressões por cerca de 20 minutos.
Com extrema violência, foi golpeada diversas vezes com um espeto de madeira, inclusive em regiões sensíveis do corpo. Ainda viva, foi perfurada repetidamente e depois jogada na água. Seu corpo foi encontrado dez dias depois.
A denúncia também apontou que o réu teria prometido R$ 500 às cúmplices pelo plano macabro — R$ 300 para atrair a vítima e R$ 200 para ajudar na execução.
Adenilson chegou a confessar o crime, ficou preso por seis meses e, posteriormente, passou a alegar inocência, dizendo que havia sido coagido. O Ministério Público, entretanto, sempre sustentou que ele não aceitava a gestação e que o crime foi premeditado.
Ação da Polícia Civil garantiu que acusado fosse levado a júri
Antes do julgamento, a Polícia Civil foi fundamental para garantir que Adenilson Cougo fosse levado a júri popular. No dia 5 de março, ele protagonizou uma fuga cinematográfica pelas ruas de Três Pontas ao tentar escapar do cumprimento de um mandado de prisão preventiva, expedido depois de não ser localizado para receber intimações.
Durante a perseguição, o acusado colidiu contra viaturas, quase atropelou um ciclista, dirigiu em alta velocidade com pneus estourados e colocou em risco pedestres e motoristas. Após intenso cerco policial, acabou capturado na Avenida Barão da Boa Esperança, próximo à Avenida Conceição Queiroz Marinho e encaminhado ao Presídio de Três Pontas.
A ação garantiu sua presença no júri e evidenciou o empenho da Polícia Civil, que evitou novo adiamento de um caso já marcado por sucessivas frustrações.
Revolta e sentimento de justiça
A demora de 15 anos para que o julgamento fosse concluído gerou revolta em familiares e na população de Três Pontas. A cada adiamento, crescia o sentimento de impunidade. Por isso, a condenação desta quinta-feira foi recebida como um marco importante para o caso Taís Alves Carolino, que se tornou um dos episódios mais tristes e comentados da história recente do município.
