Nos cinco primeiros meses de 2026, 48.945 pessoas com mais de 60 anos foram vítimas de violência em Minas Gerais. Os dados são da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) e mostram que, em média, um idoso foi vítima de crime a cada 13 minutos no estado. Apesar do número elevado, houve redução de 5% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram registradas 51.596 ocorrências.

Para a delegada Juliana Califf, titular da Divisão Especializada em Atendimento à Mulher, ao Idoso, à Pessoa com Deficiência e Vítimas de Intolerâncias (Demid) de Belo Horizonte, o crescimento das denúncias observado nos últimos anos não deve ser interpretado, necessariamente, como um aumento proporcional da violência contra idosos. Segundo ela, campanhas de conscientização, como o Junho Violeta, de mobilização nacional voltada à conscientização e ao enfrentamento das diversas formas de violência contra a pessoa idosa e a maior divulgação dos direitos previstos no Estatuto da Pessoa Idosa contribuíram para ampliar a identificação e a notificação dos casos. “Houve um aumento no número de denúncias ao longo dos anos, mas esse fenômeno não reflete apenas um crescimento da violência. Ele também está relacionado à maior visibilidade do problema e à conscientização da população”, afirma.

Subnotificação ainda é um desafio

A delegada destaca que existe uma diferença importante entre o número de denúncias recebidas e os casos efetivamente confirmados pelas autoridades. “Estima-se que apenas uma fração dos casos chega ao sistema de Justiça. Muitos idosos não denunciam por medo, dependência emocional ou física do agressor, que frequentemente é um familiar, ou por receio de retaliações”, explica Juliana Califf.

A delegada ressalta que a denúncia funciona como um alerta para o Estado, mas a confirmação da violência depende de uma série de procedimentos. “A denúncia é um aviso. A confirmação exige perícia, assistência social e investigação policial”, afirma.

De acordo com a Demid, as delegacias de Belo Horizonte e de outras regiões de Minas registram com maior frequência casos de:

  • Negligência e abandono, como falta de medicamentos, higiene e alimentação adequada;
  • Violência psicológica, incluindo ameaças, humilhações e isolamento social;
  • Violência patrimonial, caracterizada pela apropriação de aposentadorias, pensões ou bens da vítima;
  • Violência física, envolvendo lesões corporais e maus-tratos.

Golpes digitais preocupam autoridades

A delegada também chama a atenção para mudanças no perfil das ocorrências envolvendo crimes praticados contra idosos. Entre elas está o aumento das ciberfraudes e dos golpes financeiros praticados por meio da internet. “O crescimento dos golpes digitais contra idosos é uma tendência alarmante”, afirma.

Outro fenômeno observado pelas autoridades é o avanço da violência intrafamiliar relacionada à dependência financeira. Segundo a delegada, muitos idosos passaram a ser vistos como provedores do núcleo familiar. “Quando a renda da aposentadoria é utilizada para sustentar parentes sob pressão ou coerção, estamos diante de uma forma de exploração que tem crescido”, explica.

Dependência do agressor dificulta denúncias

Entre os principais desafios para o enfrentamento da violência contra a pessoa idosa está a dependência da vítima em relação ao próprio agressor. “Muitas vezes, o idoso depende do filho, neto ou cuidador para realizar tarefas básicas do dia a dia. Denunciar pode significar perder o único suporte que possui”, afirma Juliana Califf.

Ela também destaca as dificuldades de comprovação de crimes como violência psicológica e patrimonial, geralmente praticados dentro de casa e sem testemunhas.

Outro obstáculo é a falta de uma rede de apoio especializada capaz de garantir proteção contínua às vítimas após a denúncia. Segundo a delegada, a residência da própria vítima é o principal cenário das agressões.  “Cerca de 80% a 90% dos casos ocorrem dentro de casa. Na maioria das vezes, o agressor é um parente próximo, especialmente filhos ou netos”, conclui. (Fonte: O Tempo)