

A insônia raramente é falta de sono. Quase sempre é o corpo em estado de alerta numa hora em que deveria estar em paz. E sim, isso tem nome, tem causa e tem tratamento.
Olá! Sou Dr. Otávio Augusto, mas pode me chamar de Dr. Ota, trespontano, médico pós-graduado em Psiquiatria pelo Hospital Israelita Albert Einstein e fundador da SANVIT. Hoje vamos falar sobre insônia, a queixa que muita gente trata como detalhe e que, na prática, organiza (ou desorganiza) o dia inteiro.
Dormir não é apertar um botão de desligar. É o corpo confiando que agora é seguro baixar a guarda. Boa parte das insônias é exatamente isso: uma mente que ainda não se sentiu segura para descansar.
O que é insônia (e o que não é)
Insônia não é a mesma coisa que dormir pouco. Tem gente que dorme cinco horas e acorda inteira. Insônia é a dificuldade recorrente de pegar no sono, de manter o sono ao longo da noite ou de acordar cedo demais sem conseguir voltar, com um preço cobrado no dia seguinte: cansaço, irritabilidade, concentração que escorrega, paciência mais curta.
Quando isso se repete por pelo menos três noites na semana e se arrasta por três meses, falamos em insônia crônica. Antes disso ainda é insônia, só que aguda, em geral disparada por algum evento (uma preocupação, uma mudança, uma perda).
Por que a cabeça acorda justo na hora de dormir
O sono pede uma coisa simples e difícil ao mesmo tempo: desacelerar. Só que, em quem vive em alerta, o corpo passa o dia pisando no acelerador e, à noite, não acha o freio. É o que chamamos de estado de hiperalerta. A luz se apaga, o barulho cessa, e aí, no silêncio, a mente entende que finalmente tem espaço para processar tudo o que ficou pendente. O resultado você conhece: o teto, a lista mental do dia seguinte, a reprise da conversa de ontem.
O ciclo que se alimenta sozinho
A Letícia tem 34 anos e dorme com o celular na mão, jurando que vai só dar uma olhadinha. Quando percebe, é meia-noite e meia e a cabeça já abriu a planilha do dia seguinte. O Seu Antônio, 62, pega no sono fácil. O problema dele são as três da manhã, quando acorda do nada e fica rolando na cama, contando quantas horas ainda restam.
Os dois caíram na mesma armadilha: passaram a ter medo de não dormir. E esse medo é combustível puro para a insônia. Quanto mais a pessoa cobra de si mesma o sono, mais a cama vira um lugar de tensão, e menos o sono aparece. A boa notícia é que esse ciclo, montado com hábitos, também se desmonta com hábitos.
O que costuma NÃO funcionar
- Ficar deitado por horas tentando dormir (a cama acaba virando sinônimo de frustração).
- Dormir até tarde no fim de semana para compensar a noite mal dormida.
- Levar telas para a cama: a luz e o estímulo empurram o sono para mais longe.
- Usar álcool para apagar. Ele até induz o sono no começo, mas fragmenta a noite toda.
- Cochilos longos no fim da tarde, que roubam o sono da noite.
O que costuma funcionar
- Acordar sempre no mesmo horário, inclusive no fim de semana. É isso que ancora o relógio biológico.
- Não dormiu em uns 20 minutos? Levante, faça algo calmo com pouca luz e volte só quando o sono vier.
- Reservar a cama para dormir, não para resolver a vida.
- Tomar sol pela manhã e mexer o corpo ao longo do dia.
- Tratar a causa de base, e é aqui que mora o ponto principal.
Insônia não se resolve só com comprimido
O remédio para dormir tem o seu lugar, em situações específicas e por tempo definido. Mas começar (e parar) por ele costuma ser furada: alguns criam dependência, outros perdem o efeito e quase nenhum trata a raiz do problema. A abordagem com mais evidência para insônia crônica é a terapia cognitivo-comportamental para insônia, a TCC-I, que reorganiza justamente os hábitos e os pensamentos que alimentam aquele ciclo.
E vale investigar o que está por baixo. Muita insônia é sintoma de outra coisa: ansiedade, depressão, dor crônica, uso de substâncias ou apneia do sono (aquele ronco com pausas na respiração). Tratar o sono, nesses casos, é tratar o que o tira de você.
Quando procurar ajuda
Se a insônia já dura semanas, se está cobrando o seu dia, se você anda se automedicando para dormir ou se alguém já reparou que você ronca e para de respirar à noite, é hora de conversar com um médico. Sono não é luxo. É manutenção básica do corpo e da mente.
Se três da manhã virou o seu horário mais conhecido, isso não é frescura nem falta de força de vontade. É um sinal. E sinal a gente investiga, entende e cuida. Você merece a sua noite de volta.
Dr. Otávio Augusto · CRM-MG 108485
Este conteúdo tem caráter informativo e educativo. Não substitui consulta, avaliação ou tratamento individualizado. Se o sono anda tirando o seu sossego, procure um médico.













